quinta-feira, 9 de junho de 2016

Paixão

Nós nos apaixonamos todos os dias.
Por pessoas - flores - paisagens - por um momento, e assim vamos dando ênfase ao viver.
Ando apaixonada por pessoas. Não uma pessoa em si.
Apaixonada por olhares vagos, sorrisos sem sentido, danças sem compromisso e outros detalhes que pessoas alheias ao nosso convívio nos transmitem e por vezes com nosso olhar estruturado em um objetivo não enxergamos.
Parei. Literalmente parei. Sentei no banco da praça a observar.
Abro um parêntese para descrever que aquele banco já é meu velho conhecido. Coisa do tempo de criança. Foi a primeira praça que construíram em minha cidade e bem próximo da casa em que  vivi até casar - portanto entre muitos outros bancos que enfeitam esta praça, aquele é meu amigo pessoal.
Sentada observei - um vai, outro vem - passam de olhar fixo em algo à frente e que mesmo olhando não consigo ver o quê!
Carregado fortemente pela mão um jovem que acredito uns 18 anos passa - nada o perturba. A felicidade descompromissada com o amanhã ou com o que está mais adiante não o impede de notar que existo.  Sim este me vê, dá retorno ao meu olhar.
Sorrio - ele acena em duvida a mão bem lentamente - vai passando - olha uma vez mais procurando meu olhar.
Outros transeuntes  na pressa dos minutos e das horas que voam comem aquele pedaço de chão sem sentir o gosto.
Olho ao redor volta a imagem daquela mulher carregando o jovem, pela mão - passos apressados, um lenço em suas mãos era usado para espanar o vento!!! não entendia. A mulher parecia cansada, atarefada e passava o lenço pelos cabelos, batia ao vento, voltava ao rosto - o jovem este sim vinha de olhos espertos me vistoriando o sorriso.
Sentaram.
Ela dizia ao jovem que perderam - tinham que esperar mais algumas horas.
O que perderam não sei - ônibus, horário de atendimento - sei lá, estava eu (PRÉ)ocupada em entender o vazio do olhar, no vazio de indagações.
Conversei com a mulher atribulada. Ela queixou que o ônibus nunca atende um horário e que teria que aguardar mais uma hora - pensei: bom o suficiente para eu navegar naquele mundo desconhecido.
Perguntei pelo jovem - ela disse o nome Jairo - ele me sorriu ao escutar o próprio nome.
Tudo bem Jairo? O que fez hoje? Gosta de dançar? Gosta de passear? Disse ele, Jairoooo sorrindo.
A mulher já menos acalorada respondeu - gosta nada - não gosta de nada.
Olhei no olhar dele e vi naquela alma o mais belo balé da vida quando sorrindo com os olhos ele em um tom bem baixo de voz respondeu - dançar.
A mãe erguendo-se do banco olhar zangado questionou : você nunca responde - que dançar - dançar o quê?
Ele me sorriu uma vez mais e repetiu dançar, dançando suavemente os ombros.
Ando apaixonada por pessoas.
Elas tem segredos que no nosso caminhar como a mãe de Jairo, não temos tempo de entender que este é o sentido da vida.
Esta é a paixão.  

Volta Redonda, 09/06/2016


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