sexta-feira, 17 de junho de 2016

Grilhões

Quero hoje sair sem regresso.
Na liberdade que o vento me proporcionar de andar a passos largos sendo levada a um horizonte que ainda não sei, mas quero ir.
Não ver no rosto ao lado tristeza do abandono e nem mesmo um não vai - sou seu dono.
Quero respirar o cheiro de inverno que passeia por entre árvores.
Quero ser eu sendo minha natureza.
Quero sorrir para quem eu queira sorrir.
Quero apertar a mão de quem eu queira apertar a mão.
Quero na preguiça da manhã de sol leve permitindo o inverno, deixar minhas mãos serem levadas por meus pensamentos e desenhar a magia do desejo, estampa-lo em paredes descompromissadas.
Desejo expressar amor pelo próximo, pelo doido, machucado, desvirtuado, marginalizado, os das fronteiras da vida e da sociedade.
Quero o silêncio para escutar o grito da humanidade.
Amenizar  o olhar do povo distante em guerra invencível.
Dar água ao sedento.
Dar palavras aos surdos e chegar sem aviso nas células descrentes de meu cérebro ambíguo.
Quero ser eu, sorrindo de verdade. 
O sorriso mentiroso que a sociedade me acolhe me atormenta pois vivo o tormento de não poder ser sorriso por inteiro.
Quero hoje arrancar os grilhões que as mãos me prendem e o coração me escraviza.  
Hoje vou sair sem regresso!

segunda-feira, 13 de junho de 2016

Pagina escrita em Dezembro de 2009 - 2016 a mesma história


O Sr. João que até então eu não conhecia, e que ao portão de minha residência eu servi um copo de água filtrada e gelada - está calor, o sol está muito quente - disse assim: _ Ah! dona, Jesus que a mandou abrir este portão para nos servir esta água gelada. Estamos capinando a rua, e fica muito difícil aguentar a sede. Eu disse que era um prazer. Mas quantos anos tem o Sr. já não é tão jovem para estar neste serviço.

-Na verdade já estou aposentado. Mas tenho 4 filhas e minha esposa para sustentar. A minha aposentadoria é uma sobremesa, ou tira-gosto, e este serviço aqui é o meu prato cheio, é onde recebo um pouquinho mais.

-Mas está bom não é Sr.João. Nunca antes foi possível trabalhar assim após a aposentadoria ,

o que facilita comprar um geladeira nova, fogão, alimentação.

-Alimentação. Olha dona, o que estou comendo este mês na minha casa vou pagar 10 de janeiro e 10 de fevereiro. Nunca esteve tão difícil. E lá em casa as coisas são bem medidas. Criamos uns franguinhos lá no quintal, plantamos umas verdurinhas pra nós e para os frangos, e mesmo assim tá dando não.

-Ué Sr. João, eu vejo o povo dizendo todo feliz que agora é que está bom, dá pra comprar de tudo.

-Falar eu sei dona que a televisão fala, que o governo fala, as já perguntaram de verdade para o povo? É tudo mentira dona, idade pra ser minha filha senhora tem não, mas tem idade até pra ser minha irmã. Vai acreditando em tudo que fala na tv não. Vai lá viver com a gente ou pede a esses políticos pra ir lá viver com a gente pra saber dizer a verdade.

-Mas o presidente..

-Que presidente dona? Do Brasil? Dona a senhora tá de brincadeira, já bebi água, já descansei, deixa eu ir lá pra ajudar minha turma, se não a manhã é pouca pra gente conversar.

Nem mesmo o povão está querendo conversar.

Olha Sr. João, vou acreditar na Senhora sabe - pode acontecer de eu economizar um pouco de energia elétrica, desligar a tv, e não escutar mentiras não é.

Mas tá bão não é. Colocavam dinheiro era na cueca. Agora perderam a vergonha, é no paletó, na meia, na ponta do nariz e saem por ai equilibrando. Ninguém preocupa não, ninguém vê. E se alguém diz que viu, que passou na tv, lá vem o outro em contra partida afirmando. ISTO NÃO PROVA NADA> Também acho. Nada prova nada.
O outro a quem Sr.João referia era o Lula.


Sonia Inacio

Meu Umbigo

E não mais voltei ao Meu Umbigo

Tive um encontro com o mundo
e no encontrar o Mundo
encontrei o abismo de minha alma pagã.
Vi que além do meu umbigo
tem meu irmão
em eterno grito de justiça e paz
no centro de uma guerra de armas
que por si só não se satisfaz
necessita cada dia mais sangue derramado
como se fosse um comportamento fugaz.

Nada aprendi até ali
e dei inicio a minha caminhada
por pessoas amadas.
Lendo nas entrelinhas que encontrava pelas estradas
fui me ajeitando,
conhecendo,
entendendo,
doando,
vivenciando,
dispondo,
dividindo,
somando.

E vi meu umbigo
fraco mas destemido
dizendo-me em um recuo sentido:
-dei a você vida, por mim foi seu inicio, neste mundo bandido.
mas feliz, tão feliz sou eu
por ser seu umbigo
e ter você entendido
que além de mim
e dos arroubos seus,
de todos os conhecimentos vividos
e aprendidos
você se encontrou com seu interior
e conheceu Deus!

A ESPERA



A ESPERA

Esperei por você

quando as horas apressadas

me analisavam sem atenção

demonstrando-se cansadas

da minha teimosia inesperada

já que pela vida não vejo mais o verão.


Esperei por você quando a caminhada

até a caixa de correspondência arrastava em meus pés

mostrava-se também desanimada

com a minha esperança a minha fé.


Esperei por você quando o dia sem avisar

abraçou a noite em sua forma de saudar

e nem um aceno se dispôs a mim

e foi correndo talvez fugindo

do doce cheiro adocicado do jasmim,


Esperei por você quando a noite já experiente

de dias mal vividos e horas mal dormidas

sorriu paciente e estendeu-me as mãos

colou ao meu, seu peito amigo,

escutei bater seu coração

e docemente como uma mãe

falou de chegadas e partidas

beijou-me totalmente sem emoção

e me fez entender que a espera

é uma filha da esperança,

e que nem sempre os filhos

estão à disposição.


Sonia Inacio

14/12/2009
13-06-2016

quinta-feira, 9 de junho de 2016

Paixão

Nós nos apaixonamos todos os dias.
Por pessoas - flores - paisagens - por um momento, e assim vamos dando ênfase ao viver.
Ando apaixonada por pessoas. Não uma pessoa em si.
Apaixonada por olhares vagos, sorrisos sem sentido, danças sem compromisso e outros detalhes que pessoas alheias ao nosso convívio nos transmitem e por vezes com nosso olhar estruturado em um objetivo não enxergamos.
Parei. Literalmente parei. Sentei no banco da praça a observar.
Abro um parêntese para descrever que aquele banco já é meu velho conhecido. Coisa do tempo de criança. Foi a primeira praça que construíram em minha cidade e bem próximo da casa em que  vivi até casar - portanto entre muitos outros bancos que enfeitam esta praça, aquele é meu amigo pessoal.
Sentada observei - um vai, outro vem - passam de olhar fixo em algo à frente e que mesmo olhando não consigo ver o quê!
Carregado fortemente pela mão um jovem que acredito uns 18 anos passa - nada o perturba. A felicidade descompromissada com o amanhã ou com o que está mais adiante não o impede de notar que existo.  Sim este me vê, dá retorno ao meu olhar.
Sorrio - ele acena em duvida a mão bem lentamente - vai passando - olha uma vez mais procurando meu olhar.
Outros transeuntes  na pressa dos minutos e das horas que voam comem aquele pedaço de chão sem sentir o gosto.
Olho ao redor volta a imagem daquela mulher carregando o jovem, pela mão - passos apressados, um lenço em suas mãos era usado para espanar o vento!!! não entendia. A mulher parecia cansada, atarefada e passava o lenço pelos cabelos, batia ao vento, voltava ao rosto - o jovem este sim vinha de olhos espertos me vistoriando o sorriso.
Sentaram.
Ela dizia ao jovem que perderam - tinham que esperar mais algumas horas.
O que perderam não sei - ônibus, horário de atendimento - sei lá, estava eu (PRÉ)ocupada em entender o vazio do olhar, no vazio de indagações.
Conversei com a mulher atribulada. Ela queixou que o ônibus nunca atende um horário e que teria que aguardar mais uma hora - pensei: bom o suficiente para eu navegar naquele mundo desconhecido.
Perguntei pelo jovem - ela disse o nome Jairo - ele me sorriu ao escutar o próprio nome.
Tudo bem Jairo? O que fez hoje? Gosta de dançar? Gosta de passear? Disse ele, Jairoooo sorrindo.
A mulher já menos acalorada respondeu - gosta nada - não gosta de nada.
Olhei no olhar dele e vi naquela alma o mais belo balé da vida quando sorrindo com os olhos ele em um tom bem baixo de voz respondeu - dançar.
A mãe erguendo-se do banco olhar zangado questionou : você nunca responde - que dançar - dançar o quê?
Ele me sorriu uma vez mais e repetiu dançar, dançando suavemente os ombros.
Ando apaixonada por pessoas.
Elas tem segredos que no nosso caminhar como a mãe de Jairo, não temos tempo de entender que este é o sentido da vida.
Esta é a paixão.  

Volta Redonda, 09/06/2016


domingo, 5 de junho de 2016

Onde Está a Nossa Vovó?

Onde Esta a Nossa Vovó?!

Eu ontem fui ao médico.
Mandei medir o que incomodava,
cortasse e que jogasse fora,
pedi sem reserva.

Eu ontem fui ao médico.
Rusgas na alma me causaram rugas
e que esticassem supliquei,
senhora de mim a clinica deixei,
já estava feliz, fiz o que desejei.

Eu ontem fui ao salão
Cortei o que de cabelo sobrava
os brancos que teimavam aparecer, colori
Vitoriosa do salão eu sai.

Eu ontem,
ontem mudei meu armário
o lugar em que o alojava já me cansava
e as roupas que nele guardava
já me pareciam ultrapassadas.

Eu ontem fui às compras.
Sim- jeans eu a vendedora dizia ofegante,
mais colorido na blusa por favor,
um sapato de saltos altos me veja
e uma bolsa  com certeza
com que minhas novas roupas se ajeite.

Eu hoje fui a escola buscar meus netinhos
e no vai e vem da alegria
muita bala, pipoca e gritaria
pedi calma.
Calma!
Comportem-se. Vocês já estão bem crescidinhos
Não façam tanto barulho,
isto cansa a vovozinha.

Eles com olhos bem arregalados,
sorriso daqueles que só as crianças
esmigalham no canto da boca,
responderam-me perguntando a uma só voz:
-Onde está a nossa vovó?